CLEOPATRA (1970)





No dia 15 de setembro de 1970, no Japão, estreia a animação Cleópatra, ou Kureopatora, um dos filmes da trilogia de animações eróticas produzidas pelo estúdio Mushi, que ganharam o nome de Animerama. Um projeto pioneiro no gênero, que certamente que deixou todos os envolvidos na produção, bem apreensivos em relação a recepção dele no circuito exibidor. Depois de poucas semanas em exibição nas grandes cidades japonesas, já era possível observar o resultado da criação de Osamu Tezuka, Eiichi Yamamoto e Shigen Satoyoshi: Enquanto “cinema de gênero” comercial, Cleopatra foi um fracasso. Enquanto ocupava os cinemas, a animação teve como resposta salas de exibições vazias e críticas impiedosas ao tom erótico e adulto que o filme impõe em suas quase duas horas de duração, além do roteiro estranho, cheio de descuidos narrativos e o uso de um estilo de animação demasiadamente experimental. De fato, a crítica não errou ao apontar tudo isso, porém, a falha das análises na época, foi justamente não tratar parte desses “erros” como características importantes para o filme e para o contexto em que ele foi produzido.   
Certamente causa estranhamento, ver que uma animação oriental, opta por tratar como temática histórica, o reinado de Cleópatra. Mesmo para o objetivo do projeto (evocar um símbolo do que seria uma femme-fatale para estrelar a animação), parece absurdo, uma vez que a “Rainha do Nilo” é um símbolo de beleza ocidental, possivelmente irrelevante para os padrões nipônicos, mesmo no pós-guerra e, portanto, uma escolha muito estranha e anticomercial dos produtores. Estranhamento maior ainda do que a protagonista, é o gênero da animação, que pode ser também classificada como uma Ficção Científica Erótica. Apesar dessa mescla de gêneros ser comum (principalmente no ocidente), é bem mais fácil ver nas produções da AIP (Américan International Pictures – Famosa produtora de “filmes B” dos EUA, responsável por quase todos os clássicos de monstros da década de 60 e 70) do que como subgênero em uma animação japonesa. Tezuka é conhecido no Japão, pelas técnicas de animação, abordagens de inovação dos animes em gêneros e adaptações. Tendo ficado conhecido pela indústria como The Godfather of Animes, ou em tradução livre, o Padrinho dos animes (Ou o Poderoso Chefão dos animes, se preferir). Como transportaram a mente e o espírito nipônico para a história ocidental em uma trama de ficção científica?  O filme começa no futuro, o ano não é determinado, mas sabemos que é futuro pelos elementos presentes em cena. O interessante nessa cena, é que cenários, objetos e os corpos dos personagens são filmados em live action e apenas a cabeça dos mesmos é animada:


Cena inicial de “Cleópatra”.

A trama que se inicia no futuro, é a história de 3 agentes especiais da Terra: Maria Ferro, Hal Wither e Jiro Tami. Esses agentes foram convocados para investigar um plano suspeito de um planeta que espiona o planeta. Tudo que as autoridades sabem é que esse plano se chama “O Plano de Cleópatra”. Para descobrir do que se trata esse plano, os agentes são mandados para o Egito Antigo, a fim de se aproximar de Cleópatra e descobrir alguma coisa que indique no que consiste a ideia dos alienígenas. Para isso eles são transportados apenas por espírito e não de corpo, como ocorre de forma comum em filmes que envolvem viagem no tempo. Maria Ferro foi transportada para o corpo de Libya, súdita de Cleópatra, Hal Wither, para o corpo do animal de estimação da rainha (uma espécie de felino, que não é identificado, nem por meio de diálogos, nem pelo estilo de animação usado para desenhá-lo), Rupa, e Jiro Tami, para o corpo de Ionius, um escravo de Cesar. Essa trama absurda, se tratada em termos cinematográficos não faz o mínimo sentido e já revela a falta de uma organização para tornar o roteiro minimamente plausível. Analisando hoje em dia, com uma perspectiva histórica e contextual, é notável o esforço de Tezuka em tornar a escolha por Cleópatra plausível ao olhar japonês. Esse mote estranho, é um lugar comum mais confortável para o público do que o Egito Antigo, assim, transportar os agentes – de uma realidade completamente diferente do destino final – é transportar o espectador – de uma realidade completamente diferente ao destino final – e atribuir autoridade para o animador para retratar esse local incomum.
Os três agentes são transportados para o Egito durante a invasão de Cesar, a partir daí não são mais conhecidos pelos seus nomes originais. A única coisa que liga as duas tramas é a voz dos personagens que se mantem, para indicar essa troca de corpos mais facilmente, porém, não é difícil se sentir perdido, ao chegar no Egito, devido a quantidade de personagens apresentados em tão pouco tempo e o fato de que os protagonistas chegam ao seu destino em momentos diferentes do filme (Jiro Tami chega ao corpo de Ionius aos 37 minutos de filme!).  
A partir da chegada do conquistador romano, começa por parte dos egípcios, liderados por Apollodoria, uma resistência ao domínio de Roma, e a ideia para acabar com o controle de Cesar na região é seduzi-lo e matá-lo. Depois de alguma deliberação é revelado que a responsável por executar o ousado plano é a herdeira do trono de Ptolomeu: Cléopatra. A rainha aqui, não possuí nenhum traço parecido com o que ela passou a ser conhecida e do que há registros desde a antiguidade. Aqui ela parece mais uma personagem comum, sem grandes atributos físicos, o que é uma desconstrução arriscada de um conceito que certamente o público do filme não conhece por completo:

Cleópatra é apresentada aos rebeldes.


Apollodoria reafirma a importância de a rainha ter aprendido técnicas sexuais para enfraquecer Cesar, e leva a para um feiticeiro remodelar seu corpo e rosto para conseguir seduzir o romano de forma mais eficiente. Chegando lá, o filme começa a utilizar um elemento interessante, as referências a cultura pop, hora japonesa, hora ocidental:


Referência a Frankenstein.

Cleópatra tem seu corpo remodelado, e seu rosto é refeito usando um molde comum, de uma representação conhecida historicamente da soberana do Egito, graças a descobertas arqueológicas. De fato, isso pode ser interpretado como uma representação do próprio trabalho de Osamu Tezuka, modelando personagens e uma história para um público que desconhece os elementos na tela. Essa nova forma dela porém, apesar de corresponder a um padrão de beleza comum, não consegue ser simétrica como a forma anterior, isso causa, ao espectador um estranhamento durante alguns momentos do filme, uma vez que, a figura de Cleópatra, na maioria das cenas é um tanto robótica e sem expressão, devido ao traço destoante entre as duas formas dela no filme e da segunda ao resto da animação, desde os backgrounds, até os outros personagens:



Cleópatra e seu novo corpo.

Cleópatra, remodelada vai ao encontro do ditador romano. Ao ver a mulher, César se encanta e a entrega o trono do Egito. Nesse momento vai acontecer a primeira cena de sexo do filme. Cena essa que é impressionantemente artística. Nela, só conseguimos ver em traços rudimentares, o corpo dos personagens sem cabeça, fazendo movimentos. Os corpos se movimentam como ondas, onde é possível ver o contorno laranja que destoa do fundo, tudo isso em total abstração. Tendo em vista, o tom que o filme possuí, de piadas eróticas e nudez, essa cena, totalmente abstrata, para uma representação sexual, sugere realmente o desejo de Tezuka, por inovações artísticas e técnicas. Por outro lado, indica também a censura que certamente barraria alguma cena próxima do sexo explícito. De qualquer forma, isso não reduz o crédito do animador, que mesmo que para escapar da vigilância, usa uma forma sutil e subjetiva o ato sexual.
Em uma trama paralela, dois dos três personagens iniciais se encontram, no caso Ionius e Libya. Apesar de não se reconhecerem mais, os dois se envolvem ao longo da trama e se aproximam do arco principal, apesar de ficarem parte da narrativa desaparecidos da tela, como ocorre com vários personagens, devido ao grande número de personagens apresentados nesse arco egípcio da narrativa e a complexidade da trama principal (que será o foco desse trabalho).
Após a cena de sexo entre Cléopatra e César, Apollodoria sugere envenenar o romano, que acaba sobrevivendo. A rainha, acaba se envolvendo e tendo um filho com o ditador, que a leva para Roma, para apresenta-la ao povo. Esse capítulo do filme, talvez seja o mais significativo sobre as intenções dele em frente a cultura ocidental. Aqui, Tezuka anarquiza com pinturas e esculturas clássicas do ocidente (Rodín, Degas, Van Gogh, Picasso e Dalí são alguns), de forma tão animada que é quase impossível compreender a progressão e o significado de tantas imagens juntas apenas com screenshots. Mesmo assim, vale o registro de alguma referência:

                                                                             
NA MORAL, ESSE TAL DE PABLO FOI LONGE DEMAIS!

Todas elas são animadas e participam vividamente da marcha de César sobre Roma, com efeitos feitos em rotoscópio e no já citado pixelation. Tezuka utiliza essas obras de arte, ao que parece ser um referencial da sua arte. Assim como alguns pesquisadores da área como Koyama-Richards afirmam que a animação japonesa tem origem nos pergaminhos ornamentados, a animação ocidental em certo momento é inspirada pelas artes clássicas, que influenciam Tezuka, visto a transformação de Cléopatra ser inspirada no modelo presentes em esculturas e não em um padrão de beleza de um anime, como a personagem Libya, por exemplo:

                                                                                 
Lybia: Padrão feminino nas animações japonesas dos anos 70.
        
     A partir dessa marcha, a trama tem algumas reviravoltas. César tem uma crise de convulsão, e decide abandonar Cleópatra, por influência de sua esposa Calpânia. Apollodoria então, suborna Brutus, para matar o conquistador romano. Nesse momento acontece a cena mais inteligente do filme, a que reforça muito do que já foi dito a respeito da relação entre animação ocidental e oriental. E a adaptação da história ocidental, para olhos orientais. Nesse momento, a linha tênue entre as duas escolas de arte é rompida, e o resultado é a cena do assassinato de Julio César do Shakespeare, cantada e encenada como se fosse uma peça teatral japonesa. Um Kabuki shakespeariano, suficiente para arrancar suspiros de qualquer leitor da obra do autor inglês e o momento mais emocionante do filme: 

Um Kabuki shakespeariano

        
            Cleópatra depois da morte de César, é instruída por Apollodoria, a seduzir Marco Antônio, a fim de manter o Egito longe da dominação. A rainha, porém, novamente se envolve e o filme deixa claro que ali há uma história de amor verdadeira. Nesse momento da narrativa, acontece a segunda cena de sexo do filme. Novamente a abstração e os efeitos reinam. Dessa vez, a cena é como se fosse um negativo em chamas, que não se encaixa direito na tela, possibilitando ver muito pouco do ato:



Negativos em chamas.

         Seguindo uma ordem histórico-cronológica, Marco Antônio é derrotado por Augusto (aqui chamado de Otavius e Otavianus). Cléopatra é instruída por Apollodoria, a seduzir Augusto (O detalhe aqui é que Augusto desmunheca e se apaixona perdidamente por Ionius). A rainha, porém, se recusa e foge para o deserto acompanhado de Rupa, Libya e Ionius. Os três chegam em uma pirâmide (evocando o mito egípcio clássico) e acabam ficando presos. Apollodoria  guia Augusto ao local onde os heróis estão escondidos, Apollodoria é assassinada pelas tropas romanas que invadem o local. Cleopatra se mata com uma picada de cobra e os 3 amigos fogem pelo topo da pirâmide, voltando em segurança para o seu tempo. Chegando lá, os viajantes, são questionados sobre o “Plano de Cléopatra”, apesar do filme não indicar, nem mostrar como eles chegara a essa conclusão. O encerramento se dá com um letreiro explicando vagamente o que seria esse plano, com uma piadola genérica sobre casamento:

                                                                               
O Plano de Cleópatra.

Depois do fracasso comercial no Japão, Kureopatora ficou inativo nos circuitos exibidores até 1972, quando foi lançado na esteira do lançamento da polêmica animação de Robert Bakshi e distribuída pela AIP: Fritz the Cat. O gato Fritz ganhou milhões no cinema devido a sua polêmica, devido a ser a primeira animação a ter o X no rate system estadunidense. Nesse ano, (graças a influência que Tezuka possuía no ocidente devido ao seu trabalho em Astro Boy), Kureopatora foi traduzido e recebeu o enfadonho nome de Cleopatra – The Queen of Sex. Como que por destino o filme também recebeu o famigerado X, porém injusto. Há quem diga que foi o próprio Estúdio Mushi e seus distribuidores que atribuíram esse status ao filme, uma vez que, ele nem chegou a receber uma classificação oficial do órgão responsável por classificações indicativas nos EUA. O que se sabe é que a recepção dele na América do Norte, de fato, foi melhor, mas não tão distante do fiasco que havia sido no Japão.
  Esse anime acabaria por chegar nos EUA, uma hora ou outra. A invasão dos animes estava a pleno vapor, motivado pela invasão das tecnologias japonesas e do capitalismo do “milagre japonês”. E o filme não deixa de ser uma certa metáfora disso, os agentes especiais que observam distantes e que depois se apossam desse corpo, que é o capitalismo mundial e passam a interagir com os outros players multinacionais. Essa invasão por várias frontes, que se expandiria no ocidente, chegando ao ápice em meados da década de 80, foi determinante para a inclusão de elementos japoneses na cultura americana. Por isso mesmo, Cleopatra – The Queen of Sex conta com diversas referências a ocidentalidade, que mostra ser uma via de mão dupla: por um lado há uma introdução dos japoneses ao que é o ocidente e sua arte e cultura, e por outro há a ocidentalização da arte japonesa a fim de agradar o mercado externo. Osamu Tezuka, durante toda sua carreira fez isso com maestria, marcando para sempre a indústria do anime e do mangá. Ele acabou por ser um dos responsáveis pela globalização das mídias e pelo processo de Hibridização, que hoje resulta nos desenhos japoneses mais ocidentalizados (processo que começou com a ocidentalização da cultura japonesa no pós guerra) e nos desenhos americanos mais orientalizados, a fim de agradar um público específico, os otakus:

           
O anime vai virar desenho...
                                                                 
                                                                             
E o desenho vai virar anime!

Enquanto filme, animação, ou até mesmo anime, Cleópatra não pode ser considerado um bom filme. Roteiro vago, personagens sem grandes desenvolvimentos e tramas dispensáveis. Porém enquanto experiência, é um programa divertido a se fazer. A trilha e os efeitos sonoros são bem divertidos e cumprem sua função de dar um acabamento a alguns momentos em que a animação deixa a desejar. Kureopatara Abre espaço, para debates entre as relações entre animes, cartoons e sociedade no início da década de 70.
Esse traço da obra de um mestre da animação e - por que não? -  do cinema mundial: Osamu Tezuka vale a pena ser visto também pela raridade do material. Esse filme, ficou perdido por algum tempo, chegou na internet há pouco (foi um achado essa boa versão em português que obtive). Nesse ano (2018) foi anunciada um possível relançamento desse título em Blu-ray, mas é só para o mercado nipo-americano. Mesmo com alguma dificuldade é válido assistir com atenção e aproveitar as coisas boas que essa película tem a oferecer, principalmente na questão da animação e das referências a cultura pop japonesa, americana, e ao próprio trabalho de Tezuka. É recomendável também, explorar os outros trabalhos dele, como a série original do Astro Boy.
Cleopatra foi um dos pioneiros longas japoneses de animação a se aventurar no circuito comercial dos EUA, e merece destaque por isso. Sem animações como essa, possivelmente a cultura japonesa chegaria no ocidente muito mais tarde (quem sabe com o advento da internet), e não arrebataria e apaixonaria milhões de fãs pelo mundo. O graça da arte, seja ela o cinema, a literatura, a música e outras, é a capacidade que ela tem de comover e nos fazer ver o que há de melhor em nós, como um espelho. E num mundo globalizado como o nosso, quantos mais espelhos diferentes pudermos ter, para refletirmos o que existe entre nós e quanto mais histórias pudermos nos inspirar e nos fazer avançar, melhor.


Minha nota: 5,5/10 - Mais legal que ver hentai na internet


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