O REI DA TV (2022)



Sílvio Santos é um arrombado. Ok? É de certa forma libertador poder escrever isso nesses termos, por motivos que não vale a pena relatar agora nesse espaço. Apesar disso, não é segredo pra ninguém o canalha que Senor Abravanel (1930 - 2024) é. Não é segredo também, sua relevância de mais de meio século nas telecomunicações do nosso país. 

Então, como produzir uma série sobre uma pessoa relevante (e que tem influencia suficiente para te lascar, ou pra mobilizar uma narrativa que te anule) que é sabidamente - ainda que muita gente finja que não - um cuzão? Em 2016, os estadunidenses se viram na mesma situação ao produzirem um filme sobre Raymond Kroc e a colossal rede de fast food McDonalds que ele comprou nos anos 60 (basicamente passando a perna e metendo o louco) dos irmãos McDonalds, fundadores originais da lanchonete. Todos sabiam que Kroc era um asshole, mas o filme "The Founder"  ("Fome de Poder", no Brasil, dirigido por John Lee Hancock), resolveu isso pro bem da sua história a ser contada: Ao invés de fazer a boa e velha omissão e romantização, transformando o cara num anjo na terra (o que seria difícil de engolir), decidiram não esconder todas as sacanagens envolvidas nesse começo de McDonalds. 

Optaram por tratar tudo isso como se fosse a única forma que Kroc (Michael Keaton, na ficção) conseguiria ter sucesso. Ou seja, não se omite as más ações, como costuma ser natural na ficção, mas se justifica, quando não se glorifica, sem nenhuma crítica ou consequência esses atos. É tudo mostrado de forma mais banal possível, até porque na nossa sociedade de ideologia ultraliberal, o que impera é a lógica do cada um por si e pisar na cabeça dos outros é naturalizado, quando não incentivado.

Poster Brasileiro de The Founder  (Fome de Poder, John Lee Hancock, 2016). Reparem bem no slogan no topo. Engraçado... jurava que roubar não fosse algo que valesse a pena figurar em um cartaz de um filme sobre uma pessoa real.


Aí que está o pulo do gato em O Rei da TV (2022), série exibida no Disney+, que se propõe uma biografia não oficial (dentre as várias lançadas em livro no passado) do homem do baú. A tática se repete: Não se omite nada, mas muito se glamouriza dos trambiques que garantiram o sucesso financeiro de Silvio Santos ao longo de sua longa vida. Com isso, logo que lançou, a série se envolveu em uma imensa confusão, sobre o que era real e o que foi criado para a série. Desde alguma das trocentas filhas do Abravanel, até o xarope que escreve resenhas para o Na Telinha, do UOL, foram diversas as reclamações sobre o tom novelesco, ou uma suposta falta de verdade do texto. Surgiram do outro lado, elogios sobre a série não esconder muitas safadezas que Silvio Santos fez e nem traços odiosos da sua personalidade. 

E é aí que mora o perigo das inevitáveis análises sobre ficção sobre figuras da envergadura do patrão do SBT. Essas nunca foram questões para a série. É uma falsa polêmica. Quase nenhuma das coisas feitas ou ditas na série, não saíram da própria boca do Silvio Santos, ou de biografias sobre ele (como confirmado aqui por André Barcinski, um dos criadores da série junto com Marcus Baldini e Ricardo Grynszpan) e seria de péssimo tom, passar um pano pra vida do cara, que todo mundo sabe que estava longe de ser perfeita (e que todo mundo sabe que o SBT alguma hora já vai rasgar seda pro patrão em rede nacional, como já adiantou aqui, indignada uma filha do homem). O intuito é no final das contas, trazer um ar de magia as palhaçadas que Abravanel fez ao longo da sua vida, mas sem o puxa-saquismo e a reverencia cega, que esperavam os éssibetistas de plantão, o Jassa, ou a família de Silvio Santos. Os problemas da série não giram em torno disso e de acertos e erros muito pouco é falado por quem se propõe a criticar. Geralmente, inclusive, quando se faz críticas, se restringe ao polêmico clichê da fidelidade histórica.

Se formos seguir de forma religiosa a questão histórica, de fato há licenças poéticas que alteram alguns fatos pela movimentação da trama, ou mesmo por questões de agilidade. E sobre emoção e movimentação, esses são elementos que sobram no começo. A série é contada em flashback, a partir de um ponto já no nosso passado. No caso, o ano de 1988, quando Silvio Santos teve que se ausentar do seu trabalho, para ser submetido a uma cirurgia nas cordas vocais. Logo no começo, durante o início de seu programa ele fica sem sua voz e é chamado pela diretora Cleusa (Cassia Damasceno) para ver o que está acontecendo e chamar as pegadinhas para conferir o que está acontecendo com o Abravanel. Só nessa sequencia, se fossemos apegar aos purismos realistas, poderíamos apontar que: em 1988, Silvio não usava pontos eletrônicos com a direção nessa época, as pegadinhas se chamavam "câmeras escondidas" e nunca existiu nenhuma Cleusa Soares dirigindo os programas. Por isso afirmo novamente, que é interessante comparar os fatos da série com os da vida real, mas não como uma cobrança documental de uma série, que diga-se de passagem, jamais se propôs a ser assim.

E não se propõe assim, porque a história em flashbacks permite um pouco mais de liberdade narrativa. Esse estilo permite apresentar uma novidade longe da natural contação de história linear, desde a infância do homem do baú. Também permite eventualmente agradar quem está acostumado com esse tipo de história, com inicio meio e fim bem demarcados, mas sem cair em um lugar comum, dando dinamismo indo e voltando entre 1988 e um passado com infância, juventude e vida adulta. E assim a série se sustenta narrativamente, até o momento em que Silvio consegue sua primeira concessão para criar sua própria rede de TV em 1976.

Esse recorte no passado do passado se inicia com um Senor adolescente (Guilherme Reis) passando algumas dificuldades financeiras com sua família após a perda do emprego de seu pai. Tal qual um Pinóquio brasileiro, ele não se interessa em ir pra escola e sim, em ficar seguindo um ambulante português (Augusto Madeira, de "Os Caras de Pau", "Zorra", e "Nos Tempos do Imperador"). Esse é um período muito rápido da série, dura apenas um episódio, mas é interessante pra quem assiste e corrobora com todo esse caminho que fiz até aqui sobre esse texto.

Guilherme Reis como um jovem Senor Abravanel.

Aqui a gente vê a evolução de um jovem idealista e ambicioso em um eficiente camelô, convencendo as pessoas a vender uma caneta mágica. Nada disso é criticado. Há quem, que com um pouco de senso crítico enxergue que em pouco tempo Silvio Santos passou a perna no seu professor e passou a vender melhor e mais caro os mesmos produtos que o portuga sofria pra vender. Mas isso não é uma crítica da série, é um complemento da própria ética que a série estabeleceu momentos antes. Em uma batida da polícia, o famoso rapa, o português virou para seu ainda assistente Senor e disse a seguinte pérola: "a lei do mundo é assim. É um cortando o pescoço do outro", enquanto toca uma musica tensa e a câmera fecha nos dois escondidos. É uma ênfase mais do que óbvia nessa logica que se valoriza a sacanagem, ao não se esconder ela, já que valores assim são estimados no nosso mundo. 

O ponto aqui, é como os diretores Marcus Baldini e Carol Minêm fazem isso. E não há o que reclamar, a ambientação de época é muito bem pensada, e tudo parece uma pintura daquilo que o véio do SBT conta todo dia e todos os seus biógrafos afirmam e reafirmam. Por mais que seja uma balela e que as atitudes desse ainda adolescente Silvio sejam no mínimo questionáveis, é impossível não torcer por ele e se empolgar quando da sua evolução, ele já usa de trejeitos Silviosantísticos para vender seus produtos, ou quando ele passa a perna em policiais corruptos e consegue comprar produtos para sua família além de sua geleia preferida.

Ao longo dos outros 7 episódios, acompanhamos um Silvio Santos (nessa fase interpretado por Mariano Mattos Martins) que deu certo como camelô, mas que precisou expandir seus negócios, trabalhando em seu show itinerante (a Caravana do Peru que Fala), na Rádio Nacional, ao lado do Manoel da Nóbrega (Cacá Carvalho, o eterno Jamanta de "Torre de Babel"), além de comandar o Baú da Felicidade, aqui sendo apresentado como é: um grande golpe que deu certo graças a nossa instabilidade econômica entre os anos 60 e 90. Essa fase se mistura muito com o ponto de partida em 1988. Muitas das críticas negativas a respeito da série apontaram para a novelização de alguns fatos da vida do patrão do SBT. Em alguns momentos, de fato, um apelo para o exagero e para a dramatização, pode oferecer ao invés de emoção, uma certa vontade de pular bons pedaços de alguns episódios. Ao mesmo tempo, não consigo enxergar outra forma de trabalhar, por exemplo, a história do primeiro casamento de Silvio Santos, que escondeu sua companheira, até depois de sua morte em 1977 (fato admitido pelo próprio Senor, justamente em 1988). 

Mariano Mattos Martins como Silvio Santos e Roberta Gualda como Cidinha

A "novelização" é muito útil para várias situações, como a relação de Silvio com um jovem Boni, chamado de Rossi (e interpretado por João Campos) pelo medo do processinho, na transição entre TV Paulista e Globo São Paulo, nos anos 60 e 70. Apesar de ter distorções complicadas pros aficionados em TV Brasileira, como Programa Silvio Santos em cores na Globo em 1971 (ninguém é obrigado a saber, mas a TV a Cores chegou no país em 1972 e Silvio Santos faz sua estreia em Cores apenas na Tupi em 1976), é emocionante acompanhar o conflito entre programa popular e o "padrão globo defendido por Boni, a censura (com a cômica inserção do episódio do "e o Bambu?") e a independência de Silvio. A relação do Homem do Baú com o Roberto Marinho da Globo (aqui sendo quase um clone do finado, interpretado por Pascoal da Conceição, o icônico Dr. Abobrinha do "Castelo Ra-Tim-Bum").

Esses conflitos são um ponto alto da série, que nos faz refletir sobre a visão da série sobre o Silvio Santos e seu papel. Aqui, mais do que um enterteiner, ele é tido como um gênio, o único capaz de compreender os desejos do povo na televisão, que os executivos dos canais nunca se preocuparam em ouvir. Os conflitos novelescos com Rossi, evidenciam essa puxação de saco sutil. De fato, a Globo se preocupou muito com o tal "padrão de qualidade", mas em meados dos anos 70 esse acirramento entre o que era chamado de "popularesco" e o que era uma programação de "alto valor" (até 1999 a TV brasileira se preocupava com a criação de um canal para as "classes A e B", algo nunca alcançado em totalidade pelas grandes redes) diminuiu muito, tanto que é nessa época que o plim-plim atinge a liderança na audiência, que nunca mais deixaria de ocupar, justamente por compreender que a audiência massiva significa mais anunciantes. Isso, sem deixar de citar seu "padrão Globo". 

Silvio Santos deixou a Globo não por um desgaste de sua relação, não por ser perseguido por Boni e Marinho por suas escolhas artísticas (a Globo na verdade queria poder se livrar de Silvio Santos pra não vender o horário, o que já não era mais negócio pra quem detinha a maior parte das rendas publicitárias, sendo disparada a maior rede), mas sim para cumprir suas ambições, o que convenhamos, foi a escolha certa para ele. A série apresenta uma sequencia de fatores que ocultam ou igualam o desejo pessoal de Abravanel com sua relação com a Rede Globo. Silvio Santos é uma figura popular, mas não inventou a roda. Chacrinha, por exemplo, já fazia esse apelo para a maioria da população uma década antes, em uma época onde existia essa tensão, que inclusive o puniu, o afastando do comando de seu programa e do prédio da Globo por 10 anos (voltando justamente quando a emissora era líder absoluta e a TV tinha outra mentalidade). Silvio Santos era mais "higiênico" e palatável, por isso sobreviveu e raramente foi ameaçado. Ao menos essa relação gera um momento Im-pa-gá-vel de André Abujamra (famoso músico filho do também icônico Antônio Abujamra) como Chacrinha na série.

Apesar de não fazer um simples trabalho de imitar os trejeitos de diversas figuras históricas, O Rei da TV, brinca com essas associações de forma inteligente. O Sílvio Santos velho (José Rubens Chachá, a primeira imagem dessa review), confuso e amedrontado com seu problema de voz, não fica distante de um "Birdman" (Michael Keaton, olha ele aí de novo, agora no filme de Alejandro Iñarritu), sem saber o que é vida e o que é persona em vários momentos, deixando escapar bordões, quase como easter eggs, transparecendo uma fragilidade daquilo que recebemos como a personalidade real do Abravanel nas nossas TVs ao longo dos anos. A Iris Abravanel (a diva Leona Cavalli), ambiciosa, meio perua das ideias, mas muito esperta, é uma face que todos imaginamos sobre a esposa do Silvio Santos e além disso é um interessante contraponto em relação a submissa primeira esposa. O Gugu (Paulo Nigro, o Júlio da primeira versão nacional de "Chiquititas") jovem e também ambicioso vive como uma sombra de muita qualidade ao desgastado homem do baú, o que adiciona conflito e mais uma camada de vilania, ou de rivalidade ao nosso anti-herói. Esse confronto meio velado entre Gugu e Silvio rende uma releitura genial de uma das histórias mais divertidas entre os dois, contada por Gugu, no Programa do Porchat em 2017.

Paulo Nigro, como Gugu

Mesmo os personagens criados para movimentar a trama, como a já citada Cleusa Soares, fazem muito bem esse trabalho de apontar contradições e acirrar conflitos. Inclusive a jovem Cleusa (Larissa Nunes) é brilhante e audaciosa, o que exibe sem pena, calos em feridas recentes de Silvio Santos, como o racismo. Além disso, a química entre Cleusa e Cidinha (Nunes e Roberta Gualda, ambas estão na novela "Além da Ilusão", da Rede Globo) trás bons momentos, apesar do tom excessivamente dramático desse arco, já no final da série. Cleusa transmite muita segurança e uma proatividade que as vezes falta nas monótonas relações da lenda oficial sobre o dono do SBT. A atriz Larissa Nunes, faz um excelente trabalho e mantém um nível alto de entrega, como já faz na novela global que atua. Boa parte do crédito da série vale justamente por seu desempenho, um destaque positivo junto com o já citado Gugu de Paulo Nigro. Destaque positivo também para Stalisnaw, um fiscal da receita subornado pelo Homem do Baú, que se torna braço direito do Grupo Silvio Santos (na juventude interpretado por Leandro Ramos, do "Choque de Cultura", e na velhice por  Emílio de Mello, o Zeca de "O Tempo Não Para"), também faz muito bem esse trabalho de adicionar mais conflitos a mistura caótica da série e nos dá inclusive um plot twist (que não revelarei aqui para evitar spoilers) similar as novelas da Televisa que deram fama e audiência ao SBT.

Larissa nunes, como Cleusa

O Rei da TV é uma série que vale a pena assistir, e é um tributo muito interessante a história de Silvio Santos e não comete os pecados esperados. Com todas forças e fraquezas, esse Senor Abravanel mais humano, nos faz muitas vezes relevar as avacalhações que esse ser fez com milhares de pessoas ao longo de sua vida. E essa é uma evidência da eficiência da série em cumprir sua missão, de se pretender sincera e nos fazer torcer para que o camelô se torne magnata. No final das contas, é um trabalho tão sujo quanto uma biografia feita pelo SBT, a história do homem que saiu de baixo e que venceu suas dificuldades, com a diferença que aqui pouco importa se foi enganando, mentindo e pisando na cabeça dos outros, menos ainda se essa é a versão oficial da história, porque ela é tão bem contada que nos dá pouco espaço para criticar, mesmo assim sem antes vibrar com grandes momentos que conhecemos mais ou menos. 

Em terra brasilis é raro uma biografia com essa proposta de se vender como sem papas na língua. A escolha por fazer isso com Silvio Santos é muito corajosa e indica um novo sentido para biografias audiovisuais de grandes brasileiros. A série nos trás emoção, uma visão que podemos interpretar como crítica (apesar de não ser exatamente o caso) e ainda oferece uma homenagem, mas descendo forçosamente um pouco desse pedestal, o famoso apresentador e empresário, enquanto ele ainda vive. A fidelidade cega a qualquer versão da história de Senor Abravanel não deveria ser uma questão tão presente na crítica especializada, afinal, a escolha por essa originalidade não faz mal a O Rei da TV, pelo contrário, é o seu maior trunfo. O gancho para uma segunda temporada (com elenco entregue pelo Buzzfeed antes de sair a primeira), indica que ainda tem gás e possíveis situações que nos entretenha e nos coloque, como tem sido o padrão nos últimos anos (uma das consequências das posturas recentes de Silvio Santos) em questionamentos sobre amar e odiar essa figura mítica da história do Brasil.


8/10 - Talvez a Maísa estivesse certa e o Silvio Santos realmente usa peruca, porque ele é o equivalente nacional ao Gru, Meu Malvado Favorito.












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CLEOPATRA (1970)





No dia 15 de setembro de 1970, no Japão, estreia a animação Cleópatra, ou Kureopatora, um dos filmes da trilogia de animações eróticas produzidas pelo estúdio Mushi, que ganharam o nome de Animerama. Um projeto pioneiro no gênero, que certamente que deixou todos os envolvidos na produção, bem apreensivos em relação a recepção dele no circuito exibidor. Depois de poucas semanas em exibição nas grandes cidades japonesas, já era possível observar o resultado da criação de Osamu Tezuka, Eiichi Yamamoto e Shigen Satoyoshi: Enquanto “cinema de gênero” comercial, Cleopatra foi um fracasso. Enquanto ocupava os cinemas, a animação teve como resposta salas de exibições vazias e críticas impiedosas ao tom erótico e adulto que o filme impõe em suas quase duas horas de duração, além do roteiro estranho, cheio de descuidos narrativos e o uso de um estilo de animação demasiadamente experimental. De fato, a crítica não errou ao apontar tudo isso, porém, a falha das análises na época, foi justamente não tratar parte desses “erros” como características importantes para o filme e para o contexto em que ele foi produzido.   
Certamente causa estranhamento, ver que uma animação oriental, opta por tratar como temática histórica, o reinado de Cleópatra. Mesmo para o objetivo do projeto (evocar um símbolo do que seria uma femme-fatale para estrelar a animação), parece absurdo, uma vez que a “Rainha do Nilo” é um símbolo de beleza ocidental, possivelmente irrelevante para os padrões nipônicos, mesmo no pós-guerra e, portanto, uma escolha muito estranha e anticomercial dos produtores. Estranhamento maior ainda do que a protagonista, é o gênero da animação, que pode ser também classificada como uma Ficção Científica Erótica. Apesar dessa mescla de gêneros ser comum (principalmente no ocidente), é bem mais fácil ver nas produções da AIP (Américan International Pictures – Famosa produtora de “filmes B” dos EUA, responsável por quase todos os clássicos de monstros da década de 60 e 70) do que como subgênero em uma animação japonesa. Tezuka é conhecido no Japão, pelas técnicas de animação, abordagens de inovação dos animes em gêneros e adaptações. Tendo ficado conhecido pela indústria como The Godfather of Animes, ou em tradução livre, o Padrinho dos animes (Ou o Poderoso Chefão dos animes, se preferir). Como transportaram a mente e o espírito nipônico para a história ocidental em uma trama de ficção científica?  O filme começa no futuro, o ano não é determinado, mas sabemos que é futuro pelos elementos presentes em cena. O interessante nessa cena, é que cenários, objetos e os corpos dos personagens são filmados em live action e apenas a cabeça dos mesmos é animada:


Cena inicial de “Cleópatra”.

A trama que se inicia no futuro, é a história de 3 agentes especiais da Terra: Maria Ferro, Hal Wither e Jiro Tami. Esses agentes foram convocados para investigar um plano suspeito de um planeta que espiona o planeta. Tudo que as autoridades sabem é que esse plano se chama “O Plano de Cleópatra”. Para descobrir do que se trata esse plano, os agentes são mandados para o Egito Antigo, a fim de se aproximar de Cleópatra e descobrir alguma coisa que indique no que consiste a ideia dos alienígenas. Para isso eles são transportados apenas por espírito e não de corpo, como ocorre de forma comum em filmes que envolvem viagem no tempo. Maria Ferro foi transportada para o corpo de Libya, súdita de Cleópatra, Hal Wither, para o corpo do animal de estimação da rainha (uma espécie de felino, que não é identificado, nem por meio de diálogos, nem pelo estilo de animação usado para desenhá-lo), Rupa, e Jiro Tami, para o corpo de Ionius, um escravo de Cesar. Essa trama absurda, se tratada em termos cinematográficos não faz o mínimo sentido e já revela a falta de uma organização para tornar o roteiro minimamente plausível. Analisando hoje em dia, com uma perspectiva histórica e contextual, é notável o esforço de Tezuka em tornar a escolha por Cleópatra plausível ao olhar japonês. Esse mote estranho, é um lugar comum mais confortável para o público do que o Egito Antigo, assim, transportar os agentes – de uma realidade completamente diferente do destino final – é transportar o espectador – de uma realidade completamente diferente ao destino final – e atribuir autoridade para o animador para retratar esse local incomum.
Os três agentes são transportados para o Egito durante a invasão de Cesar, a partir daí não são mais conhecidos pelos seus nomes originais. A única coisa que liga as duas tramas é a voz dos personagens que se mantem, para indicar essa troca de corpos mais facilmente, porém, não é difícil se sentir perdido, ao chegar no Egito, devido a quantidade de personagens apresentados em tão pouco tempo e o fato de que os protagonistas chegam ao seu destino em momentos diferentes do filme (Jiro Tami chega ao corpo de Ionius aos 37 minutos de filme!).  
A partir da chegada do conquistador romano, começa por parte dos egípcios, liderados por Apollodoria, uma resistência ao domínio de Roma, e a ideia para acabar com o controle de Cesar na região é seduzi-lo e matá-lo. Depois de alguma deliberação é revelado que a responsável por executar o ousado plano é a herdeira do trono de Ptolomeu: Cléopatra. A rainha aqui, não possuí nenhum traço parecido com o que ela passou a ser conhecida e do que há registros desde a antiguidade. Aqui ela parece mais uma personagem comum, sem grandes atributos físicos, o que é uma desconstrução arriscada de um conceito que certamente o público do filme não conhece por completo:

Cleópatra é apresentada aos rebeldes.


Apollodoria reafirma a importância de a rainha ter aprendido técnicas sexuais para enfraquecer Cesar, e leva a para um feiticeiro remodelar seu corpo e rosto para conseguir seduzir o romano de forma mais eficiente. Chegando lá, o filme começa a utilizar um elemento interessante, as referências a cultura pop, hora japonesa, hora ocidental:


Referência a Frankenstein.

Cleópatra tem seu corpo remodelado, e seu rosto é refeito usando um molde comum, de uma representação conhecida historicamente da soberana do Egito, graças a descobertas arqueológicas. De fato, isso pode ser interpretado como uma representação do próprio trabalho de Osamu Tezuka, modelando personagens e uma história para um público que desconhece os elementos na tela. Essa nova forma dela porém, apesar de corresponder a um padrão de beleza comum, não consegue ser simétrica como a forma anterior, isso causa, ao espectador um estranhamento durante alguns momentos do filme, uma vez que, a figura de Cleópatra, na maioria das cenas é um tanto robótica e sem expressão, devido ao traço destoante entre as duas formas dela no filme e da segunda ao resto da animação, desde os backgrounds, até os outros personagens:



Cleópatra e seu novo corpo.

Cleópatra, remodelada vai ao encontro do ditador romano. Ao ver a mulher, César se encanta e a entrega o trono do Egito. Nesse momento vai acontecer a primeira cena de sexo do filme. Cena essa que é impressionantemente artística. Nela, só conseguimos ver em traços rudimentares, o corpo dos personagens sem cabeça, fazendo movimentos. Os corpos se movimentam como ondas, onde é possível ver o contorno laranja que destoa do fundo, tudo isso em total abstração. Tendo em vista, o tom que o filme possuí, de piadas eróticas e nudez, essa cena, totalmente abstrata, para uma representação sexual, sugere realmente o desejo de Tezuka, por inovações artísticas e técnicas. Por outro lado, indica também a censura que certamente barraria alguma cena próxima do sexo explícito. De qualquer forma, isso não reduz o crédito do animador, que mesmo que para escapar da vigilância, usa uma forma sutil e subjetiva o ato sexual.
Em uma trama paralela, dois dos três personagens iniciais se encontram, no caso Ionius e Libya. Apesar de não se reconhecerem mais, os dois se envolvem ao longo da trama e se aproximam do arco principal, apesar de ficarem parte da narrativa desaparecidos da tela, como ocorre com vários personagens, devido ao grande número de personagens apresentados nesse arco egípcio da narrativa e a complexidade da trama principal (que será o foco desse trabalho).
Após a cena de sexo entre Cléopatra e César, Apollodoria sugere envenenar o romano, que acaba sobrevivendo. A rainha, acaba se envolvendo e tendo um filho com o ditador, que a leva para Roma, para apresenta-la ao povo. Esse capítulo do filme, talvez seja o mais significativo sobre as intenções dele em frente a cultura ocidental. Aqui, Tezuka anarquiza com pinturas e esculturas clássicas do ocidente (Rodín, Degas, Van Gogh, Picasso e Dalí são alguns), de forma tão animada que é quase impossível compreender a progressão e o significado de tantas imagens juntas apenas com screenshots. Mesmo assim, vale o registro de alguma referência:

                                                                             
NA MORAL, ESSE TAL DE PABLO FOI LONGE DEMAIS!

Todas elas são animadas e participam vividamente da marcha de César sobre Roma, com efeitos feitos em rotoscópio e no já citado pixelation. Tezuka utiliza essas obras de arte, ao que parece ser um referencial da sua arte. Assim como alguns pesquisadores da área como Koyama-Richards afirmam que a animação japonesa tem origem nos pergaminhos ornamentados, a animação ocidental em certo momento é inspirada pelas artes clássicas, que influenciam Tezuka, visto a transformação de Cléopatra ser inspirada no modelo presentes em esculturas e não em um padrão de beleza de um anime, como a personagem Libya, por exemplo:

                                                                                 
Lybia: Padrão feminino nas animações japonesas dos anos 70.
        
     A partir dessa marcha, a trama tem algumas reviravoltas. César tem uma crise de convulsão, e decide abandonar Cleópatra, por influência de sua esposa Calpânia. Apollodoria então, suborna Brutus, para matar o conquistador romano. Nesse momento acontece a cena mais inteligente do filme, a que reforça muito do que já foi dito a respeito da relação entre animação ocidental e oriental. E a adaptação da história ocidental, para olhos orientais. Nesse momento, a linha tênue entre as duas escolas de arte é rompida, e o resultado é a cena do assassinato de Julio César do Shakespeare, cantada e encenada como se fosse uma peça teatral japonesa. Um Kabuki shakespeariano, suficiente para arrancar suspiros de qualquer leitor da obra do autor inglês e o momento mais emocionante do filme: 

Um Kabuki shakespeariano

        
            Cleópatra depois da morte de César, é instruída por Apollodoria, a seduzir Marco Antônio, a fim de manter o Egito longe da dominação. A rainha, porém, novamente se envolve e o filme deixa claro que ali há uma história de amor verdadeira. Nesse momento da narrativa, acontece a segunda cena de sexo do filme. Novamente a abstração e os efeitos reinam. Dessa vez, a cena é como se fosse um negativo em chamas, que não se encaixa direito na tela, possibilitando ver muito pouco do ato:



Negativos em chamas.

         Seguindo uma ordem histórico-cronológica, Marco Antônio é derrotado por Augusto (aqui chamado de Otavius e Otavianus). Cléopatra é instruída por Apollodoria, a seduzir Augusto (O detalhe aqui é que Augusto desmunheca e se apaixona perdidamente por Ionius). A rainha, porém, se recusa e foge para o deserto acompanhado de Rupa, Libya e Ionius. Os três chegam em uma pirâmide (evocando o mito egípcio clássico) e acabam ficando presos. Apollodoria  guia Augusto ao local onde os heróis estão escondidos, Apollodoria é assassinada pelas tropas romanas que invadem o local. Cleopatra se mata com uma picada de cobra e os 3 amigos fogem pelo topo da pirâmide, voltando em segurança para o seu tempo. Chegando lá, os viajantes, são questionados sobre o “Plano de Cléopatra”, apesar do filme não indicar, nem mostrar como eles chegara a essa conclusão. O encerramento se dá com um letreiro explicando vagamente o que seria esse plano, com uma piadola genérica sobre casamento:

                                                                               
O Plano de Cleópatra.

Depois do fracasso comercial no Japão, Kureopatora ficou inativo nos circuitos exibidores até 1972, quando foi lançado na esteira do lançamento da polêmica animação de Robert Bakshi e distribuída pela AIP: Fritz the Cat. O gato Fritz ganhou milhões no cinema devido a sua polêmica, devido a ser a primeira animação a ter o X no rate system estadunidense. Nesse ano, (graças a influência que Tezuka possuía no ocidente devido ao seu trabalho em Astro Boy), Kureopatora foi traduzido e recebeu o enfadonho nome de Cleopatra – The Queen of Sex. Como que por destino o filme também recebeu o famigerado X, porém injusto. Há quem diga que foi o próprio Estúdio Mushi e seus distribuidores que atribuíram esse status ao filme, uma vez que, ele nem chegou a receber uma classificação oficial do órgão responsável por classificações indicativas nos EUA. O que se sabe é que a recepção dele na América do Norte, de fato, foi melhor, mas não tão distante do fiasco que havia sido no Japão.
  Esse anime acabaria por chegar nos EUA, uma hora ou outra. A invasão dos animes estava a pleno vapor, motivado pela invasão das tecnologias japonesas e do capitalismo do “milagre japonês”. E o filme não deixa de ser uma certa metáfora disso, os agentes especiais que observam distantes e que depois se apossam desse corpo, que é o capitalismo mundial e passam a interagir com os outros players multinacionais. Essa invasão por várias frontes, que se expandiria no ocidente, chegando ao ápice em meados da década de 80, foi determinante para a inclusão de elementos japoneses na cultura americana. Por isso mesmo, Cleopatra – The Queen of Sex conta com diversas referências a ocidentalidade, que mostra ser uma via de mão dupla: por um lado há uma introdução dos japoneses ao que é o ocidente e sua arte e cultura, e por outro há a ocidentalização da arte japonesa a fim de agradar o mercado externo. Osamu Tezuka, durante toda sua carreira fez isso com maestria, marcando para sempre a indústria do anime e do mangá. Ele acabou por ser um dos responsáveis pela globalização das mídias e pelo processo de Hibridização, que hoje resulta nos desenhos japoneses mais ocidentalizados (processo que começou com a ocidentalização da cultura japonesa no pós guerra) e nos desenhos americanos mais orientalizados, a fim de agradar um público específico, os otakus:

           
O anime vai virar desenho...
                                                                 
                                                                             
E o desenho vai virar anime!

Enquanto filme, animação, ou até mesmo anime, Cleópatra não pode ser considerado um bom filme. Roteiro vago, personagens sem grandes desenvolvimentos e tramas dispensáveis. Porém enquanto experiência, é um programa divertido a se fazer. A trilha e os efeitos sonoros são bem divertidos e cumprem sua função de dar um acabamento a alguns momentos em que a animação deixa a desejar. Kureopatara Abre espaço, para debates entre as relações entre animes, cartoons e sociedade no início da década de 70.
Esse traço da obra de um mestre da animação e - por que não? -  do cinema mundial: Osamu Tezuka vale a pena ser visto também pela raridade do material. Esse filme, ficou perdido por algum tempo, chegou na internet há pouco (foi um achado essa boa versão em português que obtive). Nesse ano (2018) foi anunciada um possível relançamento desse título em Blu-ray, mas é só para o mercado nipo-americano. Mesmo com alguma dificuldade é válido assistir com atenção e aproveitar as coisas boas que essa película tem a oferecer, principalmente na questão da animação e das referências a cultura pop japonesa, americana, e ao próprio trabalho de Tezuka. É recomendável também, explorar os outros trabalhos dele, como a série original do Astro Boy.
Cleopatra foi um dos pioneiros longas japoneses de animação a se aventurar no circuito comercial dos EUA, e merece destaque por isso. Sem animações como essa, possivelmente a cultura japonesa chegaria no ocidente muito mais tarde (quem sabe com o advento da internet), e não arrebataria e apaixonaria milhões de fãs pelo mundo. O graça da arte, seja ela o cinema, a literatura, a música e outras, é a capacidade que ela tem de comover e nos fazer ver o que há de melhor em nós, como um espelho. E num mundo globalizado como o nosso, quantos mais espelhos diferentes pudermos ter, para refletirmos o que existe entre nós e quanto mais histórias pudermos nos inspirar e nos fazer avançar, melhor.


Minha nota: 5,5/10 - Mais legal que ver hentai na internet


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