O REI DA TV (2022)



Sílvio Santos é um arrombado. Ok? É de certa forma libertador poder escrever isso nesses termos, por motivos que não vale a pena relatar agora nesse espaço. Apesar disso, não é segredo pra ninguém o canalha que Senor Abravanel (1930 - 2024) é. Não é segredo também, sua relevância de mais de meio século nas telecomunicações do nosso país. 

Então, como produzir uma série sobre uma pessoa relevante (e que tem influencia suficiente para te lascar, ou pra mobilizar uma narrativa que te anule) que é sabidamente - ainda que muita gente finja que não - um cuzão? Em 2016, os estadunidenses se viram na mesma situação ao produzirem um filme sobre Raymond Kroc e a colossal rede de fast food McDonalds que ele comprou nos anos 60 (basicamente passando a perna e metendo o louco) dos irmãos McDonalds, fundadores originais da lanchonete. Todos sabiam que Kroc era um asshole, mas o filme "The Founder"  ("Fome de Poder", no Brasil, dirigido por John Lee Hancock), resolveu isso pro bem da sua história a ser contada: Ao invés de fazer a boa e velha omissão e romantização, transformando o cara num anjo na terra (o que seria difícil de engolir), decidiram não esconder todas as sacanagens envolvidas nesse começo de McDonalds. 

Optaram por tratar tudo isso como se fosse a única forma que Kroc (Michael Keaton, na ficção) conseguiria ter sucesso. Ou seja, não se omite as más ações, como costuma ser natural na ficção, mas se justifica, quando não se glorifica, sem nenhuma crítica ou consequência esses atos. É tudo mostrado de forma mais banal possível, até porque na nossa sociedade de ideologia ultraliberal, o que impera é a lógica do cada um por si e pisar na cabeça dos outros é naturalizado, quando não incentivado.

Poster Brasileiro de The Founder  (Fome de Poder, John Lee Hancock, 2016). Reparem bem no slogan no topo. Engraçado... jurava que roubar não fosse algo que valesse a pena figurar em um cartaz de um filme sobre uma pessoa real.


Aí que está o pulo do gato em O Rei da TV (2022), série exibida no Disney+, que se propõe uma biografia não oficial (dentre as várias lançadas em livro no passado) do homem do baú. A tática se repete: Não se omite nada, mas muito se glamouriza dos trambiques que garantiram o sucesso financeiro de Silvio Santos ao longo de sua longa vida. Com isso, logo que lançou, a série se envolveu em uma imensa confusão, sobre o que era real e o que foi criado para a série. Desde alguma das trocentas filhas do Abravanel, até o xarope que escreve resenhas para o Na Telinha, do UOL, foram diversas as reclamações sobre o tom novelesco, ou uma suposta falta de verdade do texto. Surgiram do outro lado, elogios sobre a série não esconder muitas safadezas que Silvio Santos fez e nem traços odiosos da sua personalidade. 

E é aí que mora o perigo das inevitáveis análises sobre ficção sobre figuras da envergadura do patrão do SBT. Essas nunca foram questões para a série. É uma falsa polêmica. Quase nenhuma das coisas feitas ou ditas na série, não saíram da própria boca do Silvio Santos, ou de biografias sobre ele (como confirmado aqui por André Barcinski, um dos criadores da série junto com Marcus Baldini e Ricardo Grynszpan) e seria de péssimo tom, passar um pano pra vida do cara, que todo mundo sabe que estava longe de ser perfeita (e que todo mundo sabe que o SBT alguma hora já vai rasgar seda pro patrão em rede nacional, como já adiantou aqui, indignada uma filha do homem). O intuito é no final das contas, trazer um ar de magia as palhaçadas que Abravanel fez ao longo da sua vida, mas sem o puxa-saquismo e a reverencia cega, que esperavam os éssibetistas de plantão, o Jassa, ou a família de Silvio Santos. Os problemas da série não giram em torno disso e de acertos e erros muito pouco é falado por quem se propõe a criticar. Geralmente, inclusive, quando se faz críticas, se restringe ao polêmico clichê da fidelidade histórica.

Se formos seguir de forma religiosa a questão histórica, de fato há licenças poéticas que alteram alguns fatos pela movimentação da trama, ou mesmo por questões de agilidade. E sobre emoção e movimentação, esses são elementos que sobram no começo. A série é contada em flashback, a partir de um ponto já no nosso passado. No caso, o ano de 1988, quando Silvio Santos teve que se ausentar do seu trabalho, para ser submetido a uma cirurgia nas cordas vocais. Logo no começo, durante o início de seu programa ele fica sem sua voz e é chamado pela diretora Cleusa (Cassia Damasceno) para ver o que está acontecendo e chamar as pegadinhas para conferir o que está acontecendo com o Abravanel. Só nessa sequencia, se fossemos apegar aos purismos realistas, poderíamos apontar que: em 1988, Silvio não usava pontos eletrônicos com a direção nessa época, as pegadinhas se chamavam "câmeras escondidas" e nunca existiu nenhuma Cleusa Soares dirigindo os programas. Por isso afirmo novamente, que é interessante comparar os fatos da série com os da vida real, mas não como uma cobrança documental de uma série, que diga-se de passagem, jamais se propôs a ser assim.

E não se propõe assim, porque a história em flashbacks permite um pouco mais de liberdade narrativa. Esse estilo permite apresentar uma novidade longe da natural contação de história linear, desde a infância do homem do baú. Também permite eventualmente agradar quem está acostumado com esse tipo de história, com inicio meio e fim bem demarcados, mas sem cair em um lugar comum, dando dinamismo indo e voltando entre 1988 e um passado com infância, juventude e vida adulta. E assim a série se sustenta narrativamente, até o momento em que Silvio consegue sua primeira concessão para criar sua própria rede de TV em 1976.

Esse recorte no passado do passado se inicia com um Senor adolescente (Guilherme Reis) passando algumas dificuldades financeiras com sua família após a perda do emprego de seu pai. Tal qual um Pinóquio brasileiro, ele não se interessa em ir pra escola e sim, em ficar seguindo um ambulante português (Augusto Madeira, de "Os Caras de Pau", "Zorra", e "Nos Tempos do Imperador"). Esse é um período muito rápido da série, dura apenas um episódio, mas é interessante pra quem assiste e corrobora com todo esse caminho que fiz até aqui sobre esse texto.

Guilherme Reis como um jovem Senor Abravanel.

Aqui a gente vê a evolução de um jovem idealista e ambicioso em um eficiente camelô, convencendo as pessoas a vender uma caneta mágica. Nada disso é criticado. Há quem, que com um pouco de senso crítico enxergue que em pouco tempo Silvio Santos passou a perna no seu professor e passou a vender melhor e mais caro os mesmos produtos que o portuga sofria pra vender. Mas isso não é uma crítica da série, é um complemento da própria ética que a série estabeleceu momentos antes. Em uma batida da polícia, o famoso rapa, o português virou para seu ainda assistente Senor e disse a seguinte pérola: "a lei do mundo é assim. É um cortando o pescoço do outro", enquanto toca uma musica tensa e a câmera fecha nos dois escondidos. É uma ênfase mais do que óbvia nessa logica que se valoriza a sacanagem, ao não se esconder ela, já que valores assim são estimados no nosso mundo. 

O ponto aqui, é como os diretores Marcus Baldini e Carol Minêm fazem isso. E não há o que reclamar, a ambientação de época é muito bem pensada, e tudo parece uma pintura daquilo que o véio do SBT conta todo dia e todos os seus biógrafos afirmam e reafirmam. Por mais que seja uma balela e que as atitudes desse ainda adolescente Silvio sejam no mínimo questionáveis, é impossível não torcer por ele e se empolgar quando da sua evolução, ele já usa de trejeitos Silviosantísticos para vender seus produtos, ou quando ele passa a perna em policiais corruptos e consegue comprar produtos para sua família além de sua geleia preferida.

Ao longo dos outros 7 episódios, acompanhamos um Silvio Santos (nessa fase interpretado por Mariano Mattos Martins) que deu certo como camelô, mas que precisou expandir seus negócios, trabalhando em seu show itinerante (a Caravana do Peru que Fala), na Rádio Nacional, ao lado do Manoel da Nóbrega (Cacá Carvalho, o eterno Jamanta de "Torre de Babel"), além de comandar o Baú da Felicidade, aqui sendo apresentado como é: um grande golpe que deu certo graças a nossa instabilidade econômica entre os anos 60 e 90. Essa fase se mistura muito com o ponto de partida em 1988. Muitas das críticas negativas a respeito da série apontaram para a novelização de alguns fatos da vida do patrão do SBT. Em alguns momentos, de fato, um apelo para o exagero e para a dramatização, pode oferecer ao invés de emoção, uma certa vontade de pular bons pedaços de alguns episódios. Ao mesmo tempo, não consigo enxergar outra forma de trabalhar, por exemplo, a história do primeiro casamento de Silvio Santos, que escondeu sua companheira, até depois de sua morte em 1977 (fato admitido pelo próprio Senor, justamente em 1988). 

Mariano Mattos Martins como Silvio Santos e Roberta Gualda como Cidinha

A "novelização" é muito útil para várias situações, como a relação de Silvio com um jovem Boni, chamado de Rossi (e interpretado por João Campos) pelo medo do processinho, na transição entre TV Paulista e Globo São Paulo, nos anos 60 e 70. Apesar de ter distorções complicadas pros aficionados em TV Brasileira, como Programa Silvio Santos em cores na Globo em 1971 (ninguém é obrigado a saber, mas a TV a Cores chegou no país em 1972 e Silvio Santos faz sua estreia em Cores apenas na Tupi em 1976), é emocionante acompanhar o conflito entre programa popular e o "padrão globo defendido por Boni, a censura (com a cômica inserção do episódio do "e o Bambu?") e a independência de Silvio. A relação do Homem do Baú com o Roberto Marinho da Globo (aqui sendo quase um clone do finado, interpretado por Pascoal da Conceição, o icônico Dr. Abobrinha do "Castelo Ra-Tim-Bum").

Esses conflitos são um ponto alto da série, que nos faz refletir sobre a visão da série sobre o Silvio Santos e seu papel. Aqui, mais do que um enterteiner, ele é tido como um gênio, o único capaz de compreender os desejos do povo na televisão, que os executivos dos canais nunca se preocuparam em ouvir. Os conflitos novelescos com Rossi, evidenciam essa puxação de saco sutil. De fato, a Globo se preocupou muito com o tal "padrão de qualidade", mas em meados dos anos 70 esse acirramento entre o que era chamado de "popularesco" e o que era uma programação de "alto valor" (até 1999 a TV brasileira se preocupava com a criação de um canal para as "classes A e B", algo nunca alcançado em totalidade pelas grandes redes) diminuiu muito, tanto que é nessa época que o plim-plim atinge a liderança na audiência, que nunca mais deixaria de ocupar, justamente por compreender que a audiência massiva significa mais anunciantes. Isso, sem deixar de citar seu "padrão Globo". 

Silvio Santos deixou a Globo não por um desgaste de sua relação, não por ser perseguido por Boni e Marinho por suas escolhas artísticas (a Globo na verdade queria poder se livrar de Silvio Santos pra não vender o horário, o que já não era mais negócio pra quem detinha a maior parte das rendas publicitárias, sendo disparada a maior rede), mas sim para cumprir suas ambições, o que convenhamos, foi a escolha certa para ele. A série apresenta uma sequencia de fatores que ocultam ou igualam o desejo pessoal de Abravanel com sua relação com a Rede Globo. Silvio Santos é uma figura popular, mas não inventou a roda. Chacrinha, por exemplo, já fazia esse apelo para a maioria da população uma década antes, em uma época onde existia essa tensão, que inclusive o puniu, o afastando do comando de seu programa e do prédio da Globo por 10 anos (voltando justamente quando a emissora era líder absoluta e a TV tinha outra mentalidade). Silvio Santos era mais "higiênico" e palatável, por isso sobreviveu e raramente foi ameaçado. Ao menos essa relação gera um momento Im-pa-gá-vel de André Abujamra (famoso músico filho do também icônico Antônio Abujamra) como Chacrinha na série.

Apesar de não fazer um simples trabalho de imitar os trejeitos de diversas figuras históricas, O Rei da TV, brinca com essas associações de forma inteligente. O Sílvio Santos velho (José Rubens Chachá, a primeira imagem dessa review), confuso e amedrontado com seu problema de voz, não fica distante de um "Birdman" (Michael Keaton, olha ele aí de novo, agora no filme de Alejandro Iñarritu), sem saber o que é vida e o que é persona em vários momentos, deixando escapar bordões, quase como easter eggs, transparecendo uma fragilidade daquilo que recebemos como a personalidade real do Abravanel nas nossas TVs ao longo dos anos. A Iris Abravanel (a diva Leona Cavalli), ambiciosa, meio perua das ideias, mas muito esperta, é uma face que todos imaginamos sobre a esposa do Silvio Santos e além disso é um interessante contraponto em relação a submissa primeira esposa. O Gugu (Paulo Nigro, o Júlio da primeira versão nacional de "Chiquititas") jovem e também ambicioso vive como uma sombra de muita qualidade ao desgastado homem do baú, o que adiciona conflito e mais uma camada de vilania, ou de rivalidade ao nosso anti-herói. Esse confronto meio velado entre Gugu e Silvio rende uma releitura genial de uma das histórias mais divertidas entre os dois, contada por Gugu, no Programa do Porchat em 2017.

Paulo Nigro, como Gugu

Mesmo os personagens criados para movimentar a trama, como a já citada Cleusa Soares, fazem muito bem esse trabalho de apontar contradições e acirrar conflitos. Inclusive a jovem Cleusa (Larissa Nunes) é brilhante e audaciosa, o que exibe sem pena, calos em feridas recentes de Silvio Santos, como o racismo. Além disso, a química entre Cleusa e Cidinha (Nunes e Roberta Gualda, ambas estão na novela "Além da Ilusão", da Rede Globo) trás bons momentos, apesar do tom excessivamente dramático desse arco, já no final da série. Cleusa transmite muita segurança e uma proatividade que as vezes falta nas monótonas relações da lenda oficial sobre o dono do SBT. A atriz Larissa Nunes, faz um excelente trabalho e mantém um nível alto de entrega, como já faz na novela global que atua. Boa parte do crédito da série vale justamente por seu desempenho, um destaque positivo junto com o já citado Gugu de Paulo Nigro. Destaque positivo também para Stalisnaw, um fiscal da receita subornado pelo Homem do Baú, que se torna braço direito do Grupo Silvio Santos (na juventude interpretado por Leandro Ramos, do "Choque de Cultura", e na velhice por  Emílio de Mello, o Zeca de "O Tempo Não Para"), também faz muito bem esse trabalho de adicionar mais conflitos a mistura caótica da série e nos dá inclusive um plot twist (que não revelarei aqui para evitar spoilers) similar as novelas da Televisa que deram fama e audiência ao SBT.

Larissa nunes, como Cleusa

O Rei da TV é uma série que vale a pena assistir, e é um tributo muito interessante a história de Silvio Santos e não comete os pecados esperados. Com todas forças e fraquezas, esse Senor Abravanel mais humano, nos faz muitas vezes relevar as avacalhações que esse ser fez com milhares de pessoas ao longo de sua vida. E essa é uma evidência da eficiência da série em cumprir sua missão, de se pretender sincera e nos fazer torcer para que o camelô se torne magnata. No final das contas, é um trabalho tão sujo quanto uma biografia feita pelo SBT, a história do homem que saiu de baixo e que venceu suas dificuldades, com a diferença que aqui pouco importa se foi enganando, mentindo e pisando na cabeça dos outros, menos ainda se essa é a versão oficial da história, porque ela é tão bem contada que nos dá pouco espaço para criticar, mesmo assim sem antes vibrar com grandes momentos que conhecemos mais ou menos. 

Em terra brasilis é raro uma biografia com essa proposta de se vender como sem papas na língua. A escolha por fazer isso com Silvio Santos é muito corajosa e indica um novo sentido para biografias audiovisuais de grandes brasileiros. A série nos trás emoção, uma visão que podemos interpretar como crítica (apesar de não ser exatamente o caso) e ainda oferece uma homenagem, mas descendo forçosamente um pouco desse pedestal, o famoso apresentador e empresário, enquanto ele ainda vive. A fidelidade cega a qualquer versão da história de Senor Abravanel não deveria ser uma questão tão presente na crítica especializada, afinal, a escolha por essa originalidade não faz mal a O Rei da TV, pelo contrário, é o seu maior trunfo. O gancho para uma segunda temporada (com elenco entregue pelo Buzzfeed antes de sair a primeira), indica que ainda tem gás e possíveis situações que nos entretenha e nos coloque, como tem sido o padrão nos últimos anos (uma das consequências das posturas recentes de Silvio Santos) em questionamentos sobre amar e odiar essa figura mítica da história do Brasil.


8/10 - Talvez a Maísa estivesse certa e o Silvio Santos realmente usa peruca, porque ele é o equivalente nacional ao Gru, Meu Malvado Favorito.












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